Ecolândia: o mundo para o qual a gente vive

O pessoal que produz o Ecolândia está sempre em busca de seu público, sempre tentando atender às demandas da população da Zona Sul dessa cidade localizada na Boca dos Montes, nossa Santa Maria, agora 151 anos mais velha

Na última reunião de pauta comentou-se da mudança de presidência da Associação de Moradores do bairro Urlândia, onde se localiza a rádio Caraí. Lá fomos nós planejar reportagens, entrevistas e um programa inteiro sobre as associações de bairro. Chegada a semana de produção, ninguém mais tinha notícia do nome do novo presidente da tal associação. Enganos de quem produz para a comunidade sem ser da comunidade.

Depois de muito ‘bater cabeça’ atrás do dito cujo, ligamos para a ‘voz’ da Caraí, a Dona Rose, que nos informou a real situação da associação: a eleição não só ainda não aconteceu, como parece que houve um incidente envolvendo um dos candidatos.

Terça-feira, noite, frio, chuva, fechamento de revista e reunião de pauta do Ecolândia. São 9h30min da noite, uma equipe inteira divide pizza e quebra a cabeça para encontrar uma nova pauta. A ecologia, nossa velha companheira, salva a pátria mais uma vez. O tema escolhido foi ‘Os animais selvagens’.

Aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, toda a equipe, de sorriso no rosto, vai atrás de reportagens e entrevistas, sobre o novo tema. Tudo isso para sexta-feira, porque o tempo ‘urge’.

Toda essa introdução tem uma intenção bastante acadêmica. A lição aprendida nessa semana, mais uma das muitas das quais já aprendemos nesses três anos de programa, faz parte de uma das teorias de Comunicação Comunitária que mais nos têm intrigado. Como aproximarmo-nos da comunidade? Como deixar de tratar a comunidade como simples receptor, e trazê-la para a produção efetiva do Ecolândia?

Obviamente fazemos o programa para a comunidade, nos preocupamos com os problemas vividos pelos nossos ouvintes. Mas, infelizmente, não somos da comunidade, e não temos o completo domínio das necessidades diárias de seus moradores. Tentamos contornar essa situação através do esforço continuo, mas ainda assim, sabemos que precisamos avançar.

Pensando sobre isso, e lendo alguns dos artigos de Cicília Peruzzo sobre Comunicação Comunitária, acabo por chegar a seguinte indagação: O caráter diferenciado da Comunicação Comunitária feita pelo Ecolândia não seria resultado do fato de ele ser veiculado por uma rádio comunitária que não está ligada a uma associação de bairro?

A Caraí nasceu de um sonho, o desejo que Rosi e seu marido, tinham de ter uma rádio, um veículo de informação e de divulgação das músicas que gostavam, entre outras coisas. A rádio existe para o entretenimento, sem deixar de promover a valorização da cultura local, do gosto da comunidade. O Ecolândia, junto com alguns programas da Faculdade de Comunicação da UNIFRA, são as únicas produções jornalísticas da rádio. Acredito que o Ecolândia faz uma Comunicação Comunitária híbrida: a comunidade acadêmica inserida na comunidade do bairro tentando pensar e sentir como ela para produzir informação.

Quem disse que nós não estamos fazendo Comunicação Comunitária? O Ecolândia perde em situações como o caso da edição sobre a Associação de Bairro que não aconteceu por falta de intimidade com o dia-a-dia da comunidade. Mas o programa ganha, ao promover essa experiência, quase antropológica, de fazer um grupo de acadêmicos colocar-se no lugar do outro. Um exercício de alteridade que nos traz lições muito maiores do que as amortecidas pelo pó das bibliotecas.