MÚSICA INDEPENDENTE x INDÚSTRIA FONOGRÁFICA

O cenário musical independente no Brasil tem ganhado força nos últimos tempos devido a fatores como a crescente popularização da internet, mas ainda assim, artistas que fazem música independente e autoral encontram grandes dificuldades de profissionalização e de ingresso no mercado da música.Para entender essas dificuldades é preciso conhecer um pouco da indústria fonográfica. A indústria fonográfica é um conjunto de empresas que dominam a comercialização de músicas, são empresas que se especializam em gravação, edição e distribuição em diversos formatos, como  CD, MP3 e, mais antigamente, fita cassete e vinil.

No mundo, existem quatro empresas históricas da indústria fonográfica que dominam o cenário musical. A Warner,  a EMI, a Sony-BMG e a Universal Music. Essas empresas formam um oligopólio mundial e acabam definindo as tendências musicais e selecionando os artistas que vão ter mais sucesso. No Brasil não é diferente e esses conglomerados da indústria fonográfica também estão presentes no cenário da música. Mas como a indústria fonográfica surgiu no Brasil?

A música sempre fez parte da história humana como forma de expressão e demonstração cultural. Os povos indígenas tinham e têm seus cantos e músicas, que eram, antes da colonização do Brasil, a principal manifestação musical aqui. Durante o período da escravidão no país, a população negra que veio da África trouxe também cantos e músicas populares que participaram também da construção da musicalidade brasileira. Mas não se pode dizer que nessa época existia uma indústria da música, pois é algo que surgiu aqui no Brasil no capitalismo pós-industrial, no período da República Velha, que vai de 1889 até 1930. A partir daí, começou a comercialização de músicas no país. Antes disso, os músicos só podiam mostrar suas composições fazendo apresentações ao vivo.

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Fonógrafo

O primeiro estúdio de gravação no Brasil surgiu no ano de 1900, no Rio de Janeiro. A Casa Edison, como era chamado o estúdio, possuía um fonógrafo, aparelho inventado pelo norte-americano Thomas Edison em 1877. Em 1913, surgiu também no Rio de Janeiro a primeira fábrica brasileira de discos, a Odeon. Nessa época, os discos eram feitos com cera carnaúba e tocados em vitrolas que eram movidas por manivela. Isso se manteve até 1950, quando surgiu o Long Play, chamado de LP, que era mais resistente e flexível. Em 1960, já existiam em torno de 150 fábricas de discos no Brasil.

A segunda grande mudança na indústria fonográfica, depois do LP, foi o surgimento do CD na década de 1980, que tinha capacidade de armazenamento de até 8o minutos de gravação. A terceira mudança significativa aconteceu em 1999, quando surgiu o Napster, que passou a distribuir e compartilhar músicas no formato digital mp3. A internet começava a ganhar força. Em 2001, no entanto, a rede do Napster foi desligada depois de perder uma ação judicial para várias companhias da indústria fonográfica norte-americana. As músicas em formato digital começaram a ganhar força também com a criação do ipod, um tocador de áudio digital com armazenamento de 5g, lançado pela Apple em 2001. Em 2003 a Apple lançou também um serviço de venda online de músicas, o iTunes Store.

lp

LP

É um pouco difícil definir o que é música independente. Normalmente, o termo é usado para se referir a artistas que tentam se colocar no cenário musical mas não tem grande força econômica. São artistas que não estão ligados à indústria fonográfica e as grandes gravadoras. No entanto, muitas vezes, o termo também é utilizado para definir as pequenas gravadoras que não fazem parte do oligopólio das companhias musicais. Uma divisão de modelo de negócio que é bastante utilizada para gravadoras é a de majors e indies. As gravadoras majors são aquelas transnacionais, que fazem parte dos conglomerados. As indies são as pequenas gravadoras nacionais. Segundo a Associação Brasileira de Música Independente, o Brasil tem cerca de 80 gravadoras independentes.

Essa hegemonia das grandes gravadoras da indústria fonográfica acaba causando uma falta de espaço para artistas independentes. Uma prática bastante comum, é a chamada de JABÁ, que são pagamentos, presentes ou vantagens oferecidas a emissoras de tv e de rádio para que toquem determinados artistas e músicas.

Com o crescimento e a popularização da internet, aos poucos esse cenário tem se transformado. A indústria fonográfica tem perdido a hegemonia, já que agora as pessoas podem baixar músicas o tempo todo pela internet e há uma grande discussão em torno da validade dos direitos autorais.

cd

CD

Os artistas independentes também têm a possibilidade de se projetar na internet, dar visibilidade a seus trabalhos por meio de plataformas como o YouTube e o SoundCloud e redes sociais como o Facebook, além da possibilidade de entrar em contato e fazer projetos com artistas independentes que estão nos mais diversos locais.

Uma alternativa que tem sido utilizada por artistas independentes é o financiamento coletivo. A banda Liniker e os Caramelows, por exemplo, está realizando um crowdfunding na plataforma Catarse para financiar o primeiro álbum, chamado “remonta”. Isso possibilita que pessoas que se identificam com o projeto façam doações em dinheiro para que ele se concretize. Liniker também possui um projeto colaborativo de música independente, o salada de frutas, que é feito em parceria com a banda As Bahias e a Cozinha Mineira. A cada apresentação, o coletivo convida artistas diferentes para cantarem juntos. O objetivo, além de fortalecer a música independente, é mostrar que a representatividade social e de gênero na música também importa, já que as vocalistas de As Bahias e a Cozinha Mineira são mulheres trans e Liniker é negro e se declara como não-binário.